REALIDADE NEGRA
Localizada no município de Paraty, litoral sul do Estado do Rio de Janeiro, Campinho da Independência tem como marco o início de sua história, através das 3 mulheres negras da antiga Fazenda Independência que ao final do século XIX, receberam a doação das terras onde, ao longo dos tempos, se constituiu uma comunidade.
A ordem deixada pelas 3 mulheres (Vó Tonica, Tia Marcelina e Tia Luíza) era a de que aquelas terras deveriam ser cuidadas para que houvesse garantia de qualidade de vida aos quilombolas, de geração em geração.
A família quilombola compreendeu o recado das 3 mulheres, e ao longo das décadas, construiu uma bela história em defesa de seu território, ao ponto de travar uma batalha judicial que durou longos 30 anos, sustentada pelas farinhadas e outras formas alternativas de geração de renda para garantir honorários de advogados e outras gastos até então necessários.
Essa etapa da história da comunidade teve fim em 21 de março de 1999, quando a então governadora em Exercício do Estado do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, no cumprimento do artigo 68 das Disposições Transitórias da Constituição Federal de 1988, outorgou o título de propriedade das terras à comunidade, fazendo da mesma, a primeira comunidade quilombola (e única até hoje), a receber suas terras baseadas no artigo 68 do ADCT. Desde então, a comunidade tem se desdobrado através da Associação de Moradores do Quilombo Campinho da Independência (AMOQC), nos processos de desenvolvimento local sustentável.
A arte, cultura e educação são consideradas elementos de fundamental importância no processo de desenvolvimento local sustentável, pois reafirma a identidade étnica do grupo, e resgata valores ancestrais ameaçados pelo modelo de desenvolvimento adotado pela sociedade atual.
O Ponto de Cultura Manoel Martins, coordenado pela AMOQC no Quilombo Campinho da Independência e apoiado pelo Ministério da Cultura, é um importante espaço onde se trabalha de forma
integrada esses elementos acima descritos.
O Hip Hop no Quilombo
O hip hop surge no quilombo no contexto da arte, educação e cultura, tendo o MC (Mestre de Cerimônia) como único elemento presente no contexto, e através da rima, transmite mensagens educativas e de protestos que o RN – Realidade Negra, grupo de hip hop local busca trabalhar com muito compromisso. Os DJ’s, os Grafiteiros e os BBoys aparecem sempre em oficinas e apresentações, não tendo ainda pessoas no local que desenvolvem tais atividades.
A opinião pública em torno da presença do hip hop dentro de uma comunidade quilombola ainda é fundamentada em preconceitos, por acreditarem que os quilombolas devem se limitar às práticas culturais formadas pelas rodas de canto e dança ao som dos tambores.
É importante considerar que a rima sempre esteve presente nas comunidades tradicionais, como se pode notar nos pontos de jongo e calango, nas trovas e nos repentes, onde as rimas são verdadeiras disputas entre intelectuais.
A musicalidade apresentada pelo grupo Realidade Negra traz uma influencia da música negra com guitarras suingadas, teclados, e levadas de baixo e bateria, sempre buscando ter uma originalidade própria, a fim de que o povo quilombola se identifique com o trabalho.
O movimento quilombola vive hoje um dos momentos de maior enfrentamento em sua disputa política, frente às expulsões que as comunidades quilombolas vem sofrendo diante da expansão do agronegócio, onde vários projetos de lei no congresso nacional busca reduzir ou anular os direitos já conquistados pelo grupo e, segundo a CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas), a maior fragilidade do movimento se dá pela desinformação da sociedade acerca da questão quilombola, daí, mais uma vez o hip hop aparece como um elemento importante de informação e de luta, com responsabilidade à nível nacional.
Realidade Negra
Em 2004, Romero e Nélio criaram o nome RN, sigla de Realidade Negra, quando tiveram suas primeiras apresentações nos eventos “Roda da Leitura” e “VI Encontro da Cultura Negra” no Quilombo do Campinho quando improvisaram ao Reggae do grupo Nova Semente. No mesmo evento, porém no ano seguinte a dupla teve uma participação maior, se apresentando com banda própria, formada especificamente para a ocasião.
Só em 2006 o RN se assumiu definitivamente enquanto banda, trazendo a seguinte formação: Daw (back vocal) AKS (teclados e voz), Negro Naldo (guitarra e voz), Betão (guitarra), Body Power (contrabaixo) e Fábio Black (bateria). Mano Romero e Nelhão (MC's), que deixam de ser uma dupla, seguem compondo e cantando ao som da música negra produzida pela banda RN.
Todos evangélicos, revelam em suas letras a necessidade que o homem tem de Deus, trazem também à tona os conflitos sociais e raciais que enfrenta a nossa sociedade, suas causas e conseqüências e propostas de soluções, e fala do orgulho de sua origem como mostra a música “Quilombo do Campinho”.
A partir dessa nova fase, o grupo experimentou maiores oportunidades de se apresentar em eventos fora da comunidade, tendo seu auge na “FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty)” de 2006, onde cantou e participou de uma conversa com o poeta inglês Benjamim Zeephanyan, com exibição no Jornal Nacional.
No dia 01 de dezembro do mesmo ano, o RN participou do “Quilombo Axé”, evento que leva artistas negros às comunidades quilombolas, interagindo com os grupos locais. A apresentação resultou na participação do grupo no mesmo evento na Bahia, 20 dias depois.
Desse evento participaram Zezé Mota, Lecy Brandão, DMN e Netinho de Paula. Rappin Hood e Tony Garrido da Banda Cidade Negra também tiveram
participação e ainda dividiram palco com Romero e Nelhão, MC’s do RN.
Em 2007, a principais apresentações foram o “Paraty Cultural”, evento protagonizado pelo grupo em 07 de janeiro e o show em ocasião do “Revezamento da Tocha dos Jogos Pan-americanos”, quando tivemos também as participações de Tony Garrido e Sandra de Sá.
Ainda em 2007, participou do “Café com Hip Hop”, evento de hip hop realizado em Juiz de Fora – MG, e no ano seguinte, realizou o mesmo evento na quadra da Ilha das Cobras em Paraty – RJ, em parceria com os realizadores de Juiz de Fora e da Associação de Moradores da Ilha das Cobras. Desde então, o Realidade Negra tem trabalho em funç
ão da produção de seu primeiro CD.
Romero e Nelhão
Romero Martins Veloso (21) e Nélio B. Martins (21), são quilombolas do Campinho da Independência, comunidade onde vivem até hoje.
Como a maioria dos jovens de sua idade, ouviam o funk dos morros cariocas, até que no ano 2000 se depararam com o som dos Racionais MC's quando se identificaram imediatamente com o que ouviram. À partir de então, foram procurando outros grupos de rap, o que mexeu diretamente com sua auto estima, logo começaram a escrever e cantar suas próprias letras.
Tendo assistido vários conflitos resultantes do uso abusivo de álcool e drogas, inclusive com parentes muito próximos, eles procuraram seguir um caminho onde pudessem ser exemplo para a juventude, e através da arte mostrar pras gerações que existe perspectiva de vida, mantendo os valores deixados pelos nossos antepassados que tem na comunidade uma grande família que precisa ser cuidada.
Gravação
Com todo esse trabalho o Realidade Negra vem conquistando públicos de diferentes faixas etárias nos Quilombos e nas cidades e por onde vem passando, e o material fonográfico tem sido uma reivindicação freqüente por onde o grupo passa.
Paraty fica no litoral Sul do Estado do Rio de Janeiro (Costa Verde), lugar maravilhoso pra se viver e para visitar, mas que em termos de produção de áudio visual, não oferece muitas oportunidades. Depois de ter entrado em estúdio, o grupo decidiu interromper o trabalho e investir em uma gravação ao vivo, pois o estúdio ficava a quase 100 Km do lugar onde moram. A gravação ao vivo, além de facilitar o processo de produção, ainda oferece mais vida e calor ao resultado final do trabalho, além da possibilidade da produção do vídeo, ampliando o sonho de gravação de um CD para um CD/DVD.
A gravação ao vivo de seu primeiro CD/DVD será no dia 21 de Novembro de 2009 no “XI Encontro Festa da Consciência Negra” que será realizado na Comunidade Quilombola do Campinho da Independência – Paraty – RJ, numa produção independente do Grupo Realidade Negra.